Sobre a performance do nu no MAM


Um dos argumentos mais utilizados no últimos dias é: O que é arte? - pois bem, esta pergunta vem sendo feita há anos e é tema de inúmeros debates. Pergunta tão irrespondível quanto "O que é justiça?". A conclusão de um longo seminário do qual participei há quase dez anos, sobre Vícios e Virtudes, é que a Justiça é impossível de ser definida, mas que a injustiça é amplamente reconhecida. Bom, partindo desse princípio, diria que não se define arte, mas que quando ela não existe, gera uma estranha percepção de que ali, ela não se faz presente. Duchamps assustou meio mundo quando colocou um mictório num museu. Certamente ele debochava dos críticos de arte. Mas, há quem ainda sustente que foi uma quebra de paradigmas. Ah, mas a arte tem que suscitar o debate. Desde quando a maior parte das obras de arte mais consagradas mundialmente gerou debate? Talvez o polêmico quadro de Coubert, A Origem do mundo, tenha de fato provocado discussões mais acaloradas. Outra linha de argumentação estrategicamente disseminada para defender o indefensável é dizer que Hitler confiscou obras de Schiele e vários outros pintores judeus, por entendê-las como arte depravada, má influência e, portanto, estaríamos todos abrindo as portas para que algum tirano viesse novamente fazer o mesmo. Hitler e o nazismo são fartamente utilizados como contra-argumento tanto da direita, quanto da esquerda, quanto do centro. É o extremo que assusta e quase sempre cala os mais pacatos cidadãos. O nu sempre causou espanto, mas uma criança tocando um homem nu e isto ser visto como performance artística, é novidade, das mais absurdas. É certo que há pedofilia em igrejas, escolas e em todo canto, seja ele de direita, esquerda ou de centro. O ato em si da performance não configuraria pedofilia por não haver introdução do órgão sexual masculino na menina que, admirada, toca os pés do "artista". Se é ou não pedofilia, ou, no mínimo, incitação grave à ela, o tempo e os homens da lei o dirão. Se o ato "artístico" banaliza um dos atos mais hediondos da humanidade, não tenho dúvidas.



pensamento chão (viviane mosé)

          “do lado de fora é onde deve estar nosso lado de dentro”
          



Roberto Carlos e eu

Eu sou completamente doente de superstições. Não a ponto de tomar remédios pra isso e nem precisar de ser internada com síndrome de pânico. Mas, alguém um certo dia fala alguma coisa que pode “influenciar meu destino” e pronto. Lá vou eu assimilar a tal superstição. Sou praticamente um Roberto Carlos, sem suas virtudes. Sei bem de onde vem isto. E sei bem também de onde vêm tantos outros defeitos meus. Saber não é caminho pra mudar. Pode até ser em outras pessoas, não comigo. Sei que esses “tocs”, ou seja, Transtornos obsessivos compulsivos, vêm do pensamento mágico. Era muito levada quando criança, o que talvez já indicasse alguma falha na tal formação do ego. Fato é que, para me acalmar, minha mãe dizia que tal coisa poderia levar a outra pior. Aí, cresci esse monstro que acredita que as palavras e certos símbolos podem transformar o universo ao meu redor.
Tenho verdadeiro pavor de certos símbolos, assumo-os como transformadores potenciais da minha vida. Um medo terrível de que algo de trágico aconteça caso eu vista, pegue, use, fale, ou qualquer coisa nessa linha, meus atos influenciariam em tese, meu viver. Claro que isso é verdade. Atos, de fato, influenciam nossas vidas. Mas há uma culpa desproporcional nessa relação. Foram mais do que cinco anos de análise e muito dessas coisas ainda não foram resolvidas. Sim, tomei consciência, como já disse antes. Uma vez no divã, custei a contar uma das minhas superstições absurdas. Mas o fiz. Após contar sobre o tal fantasma, meu ex-psicanalista disse que tinha uma paciente que só jogava o lixo fora enquanto todos da família estivessem presentes. Roberto Carlos já ficou preso em uma igreja porque não conseguia sair pela mesma porta que entrou.
Todo ser humano nasce e carrega um montante de angústia em seu ser que pode ser tanto maior quanto tiver sido a segurança desenvolvida em sua primeira infância. Algo falhou. A falha não foi tão grande pois consegui me inserir, de certa forma, no campo dos neuróticos. Não fui pra psicose e muito menos pra perversão. Quem se relaciona com pessoas assim, deve saber que certas palavras e certos gestos, devem ser evitados. Só os bem próximos sabem o que nos toca. Não tenho soluções. É apenas um pequeno desabafo de quem pensa dez vezes antes de misturar uma cor com outra. Fui.



As vidas invisíveis



- São dois ônibus, eu desço lá no centro e pego o que vai até na avenida nossa senhora do carmo, e paro ali mesmo pra não pegar outro, aí eu economizo um ônibus, mas pra isso eu atravesso uns quatro quarteirão no meio da favela. Não to nem aí não. Ando até, até que pra ir não é difícil não, nem canso não, mas na volta depois da faxina toda, aí eu fico cansada.

- Mas aí é bom demais porque você faz exercício e seu colesterol nunca vai ficar alto igual ao meu. (e eu nem podia perguntar pra ela como era o colesterol dos pais, pois as poucas vezes que falou deles, lembrava de pouca coisa. O pai, apelidado de Pelé, dizia ela, era um negro bonito, mais pra mulato, um sujeito doce. Não tinha irmãos, desconfiava que a mãe tinha tido caso com outro homem e enganado o pai, mas mesmo assim o considerava o pai verdadeiro. A mãe bebia, era muito vaidosa, seca, não tinha boas lembranças dela não. Depois que o pai morreu, ficou ainda pior, bebia até perfume. E se perfumava com o perfume que bebia. E até hoje o cheiro de certos perfumes a incomodava demasiadamente. Era uma náusea profunda e eterna. Sempre essa relação filha e mãe complicando a cabeça da maioria das mulheres.)

- Nem passo perto de médico, nunca gostei.

- Por causa do seu pai?

- ah ... acho que é sim.

- é .. você me falou da questão da hemodiálise dele mesmo. Não deve ter sido fácil. E você era muito pequena, sem irmãos, sem apoio, né? Sua mãe ia com você?

- Ia nada. Ela queria era se arrumar, gastava tudo com vestido decotado, aqueles vestidos pra deixar os peitos quase aparecendo, mas ficava bonita. E fazia uns penteados bonitos, puxava o cabelo assim de lado, ficava charmosa mesmo, os homens todos olhavam pra ela. Acho que é por isso que eu não gosto de me arrumar.

- é ... você não gosta muito não. Também você trabalha muito, nem dá pra ficar arrumada o tempo todo. Mas já é bonita naturalmente.

Cartas de amor. Photo: Sabine Weiss

Sabine Weiss

Meu amor:

Carpe Diem.
Colha o dia.

A vida tem mais sentido se há na sentido na vida, uma direção, um projeto de longo prazo.  A ausência desse sentido abre espaço para o vazio, o mal-estar indefinível, o buraco do desalento.

Carpe Diem.  Aproveite o momento.  Não pense no amanhã.  Vamos desencanar.

O filme Sociedade dos Poetas Mortos, com sua bela mensagem de celebração da vida, contrapondo-se à fossilização do pensamento, nos trouxe de volta a frase latina.

Veio a calhar muito bem naquele final dos anos 80, já que a tesoura da emergente era narcísica incumbia-se de começar a cortar os elos entre o hoje e o amanhã, entre o eu e o outro.

O encaramujamento egóico é o núcleo do narcisismo.  Vale para os que estão nas bolhas das academias de ginásticas, dos carrões e das casas de praia, e, também, para os que se confinam aos iglus das regiões de extrema frieza humana do ``connecting people``.

Vive-se desencanadamente em coletividade, em uma ruptura com o amanhã e com o outro.

Daí, pululam os sintomas, toda a sorte de distúrbios dos sentidos.
O indecifrável mal-estar tem como causa a falta de sentido.

Você é pulsão de vida, de movimento, de fraternidade, de comunhão com o próximo.

Temos um projeto. 

Uma parte deles estará nos livros que editaremos. 
A outra parte são filhos, viagens, amigos, pistas de dança, as nossas risadas tão gostosas, a degustação de todo o viver, e a fé Nele, renovada no Carpe Diem.    

“Um galo sozinho não tece uma manhã.  Ele precisará sempre de outros galos”.

Esta é a verdadeira dimensão do Carpe Diem: a do poeta pernambucanoAmo você.

Beijos,



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...