Roberto Carlos e eu

Eu sou completamente doente de superstições. Não a ponto de tomar remédios pra isso e nem precisar de ser internada com síndrome de pânico. Mas, alguém um certo dia fala alguma coisa que pode “influenciar meu destino” e pronto. Lá vou eu assimilar a tal superstição. Sou praticamente um Roberto Carlos, sem suas virtudes. Sei bem de onde vem isto. E sei bem também de onde vêm tantos outros defeitos meus. Saber não é caminho pra mudar. Pode até ser em outras pessoas, não comigo. Sei que esses “tocs”, ou seja, Transtornos obsessivos compulsivos, vêm do pensamento mágico. Era muito levada quando criança, o que talvez já indicasse alguma falha na tal formação do ego. Fato é que, para me acalmar, minha mãe dizia que tal coisa poderia levar a outra pior. Aí, cresci esse monstro que acredita que as palavras e certos símbolos podem transformar o universo ao meu redor.
Tenho verdadeiro pavor de certos símbolos, assumo-os como transformadores potenciais da minha vida. Um medo terrível de que algo de trágico aconteça caso eu vista, pegue, use, fale, ou qualquer coisa nessa linha, meus atos influenciariam em tese, meu viver. Claro que isso é verdade. Atos, de fato, influenciam nossas vidas. Mas há uma culpa desproporcional nessa relação. Foram mais do que cinco anos de análise e muito dessas coisas ainda não foram resolvidas. Sim, tomei consciência, como já disse antes. Uma vez no divã, custei a contar uma das minhas superstições absurdas. Mas o fiz. Após contar sobre o tal fantasma, meu ex-psicanalista disse que tinha uma paciente que só jogava o lixo fora enquanto todos da família estivessem presentes. Roberto Carlos já ficou preso em uma igreja porque não conseguia sair pela mesma porta que entrou.
Todo ser humano nasce e carrega um montante de angústia em seu ser que pode ser tanto maior quanto tiver sido a segurança desenvolvida em sua primeira infância. Algo falhou. A falha não foi tão grande pois consegui me inserir, de certa forma, no campo dos neuróticos. Não fui pra psicose e muito menos pra perversão. Quem se relaciona com pessoas assim, deve saber que certas palavras e certos gestos, devem ser evitados. Só os bem próximos sabem o que nos toca. Não tenho soluções. É apenas um pequeno desabafo de quem pensa dez vezes antes de misturar uma cor com outra. Fui.



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